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Jorge.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ao meu pai

 Recordo-o ainda. Saímos em um dia de sol, para uma pescaria da qual ele nunca mais retornou para nossos olhos físicos.
Quando o trouxeram, depois de uma longa viagem de translado, era somente um corpo dentro de um caixão. Lacrado, ao demais, tendo em vista os vários dias passados desde a sua morte.
Meu pai era um homem alegre. Às vezes me levava ao seu trabalho. Gostava de música, de dança, de estar com amigos, conversar, contar causos.

E ele os tinha às centenas. Toda vez que retornava de viagem, os filhos, éramos seis, todos menores de 9 anos, nos reuníamos em torno da mesa, na cozinha ampla, para ouvi-lo.
Ele contava causos de forma pausada. Ia descrevendo as cenas, uma a uma, reproduzia os diálogos.
Por vezes, minha irmã e eu, mais impacientes, o interrompíamos: E daí, o que aconteceu? Conta logo.
Ele sorria mostrando seus dentes curtos, bem moldados. E continuava com a mesma calma, até o desfecho da história.
Tê-lo em casa era muito bom e significava que um de nós iria dormir na cama dos pais.
Por vezes, nossa mãe nos dizia que desejava ficar a sós com ele. Mas, mal despertava a madrugada, quem primeiro acordasse, corria para o quarto e se enfiava entre os dois.
Ele acordava e brincava conosco, fazendo cócegas, jogando travesseiro. Era uma festa!
Meu pai! Quantas saudades! Ele era formidável. Desde bem jovem conhecera o trabalho duro.
Constituíra família cedo e os seis filhos lhe exigiam que desse o máximo de si.
Insistia que precisávamos estudar. E estudar muito. A duras penas, pagou para cada um de nós o ensino fundamental, em escola particular. Sempre escolheu a melhor escola da cidade.
Mas ele não chegou a ter tempo de ver pelo menos um de seus filhos formar-se doutor. Porém, todos nós, meus irmãos e eu, fomos brindados com o que ele tinha de mais precioso.
Ensinou-nos a honestidade, ensinou-nos que melhor era ser enganado do que enganar.
Viveu no tempo em que a palavra de um homem era documento mais válido do que nota promissória, duplicata ou qualquer título financeiro.
Legou-nos um nome honrado e disse-nos que o dignificássemos, ao longo de nossa vida.
Olhava para mim, com orgulho e dizia: Um dia você será uma pessoa muito importante!
Hoje, quando viajo pelas estradas, muitas delas velhas conhecidas de meu pai, eu o recordo.
Será que ele sabia que um dia eu seria alguém que viajaria, defenderia pessoas, advogando?
Ele não chegou a conhecer os netos. Partiu para a Espiritualidade, em anos jovens, deixando-nos um grande silêncio n’alma.
Em homenagem a ele, em nossos aniversários, nas festas de Natal e Ano Novo, nos encontramos.
Rimos, ouvimos música, dançamos. Porque ele nos ensinou a sermos assim.
A vida é dura, mas nós a podemos adoçar, se quisermos. – É o que dizia.
Meu pai, meu mestre, onde estejas, Deus te guarde. Especialmente nesta época em que os pais são recordados pelos filhos, que os brindam com presentes.
Meus irmãos e eu te brindamos com a prece da nossa gratidão: Obrigado por nos terdes dado a vida.
Obrigado por nos terdes ensinado a bem vivê-la.

Redação do Momento Espírita.
Adaptado por Guaraci José Terlecki
Em 11.08.2011.

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